origem do nome
Quando o barro me chamou de volta, no último ano da faculdade, não foi imediato saber o que fazer com ele. Vinha da escultura, da pedra, e podia ter regressado ao barro para fazer qualquer coisa. A pergunta que me apareceu foi outra: se é para regressar, a quê é que regresso mesmo?
Foi a partir dessa pergunta que o projeto começou a ganhar forma. E quando percebi que não ia ficar por ali, precisei de lhe dar um nome. Sabia pelo menos uma coisa: não queria um nome só meu.
Acredito que uma ideia só cresce quando não se fica sozinha com ela. Por isso, desde o início, imaginei um lugar onde outros pudessem entrar, mãos que não fossem as minhas.
O nome apareceu numa manhã, naquele estado em que ainda se está a dormitar, meio a dormir, meio acordada. De repente, veio-me à cabeça pomar e lembro-me de pensar: é este. Levantei-me e fui escrever sobre isso, sobre o que a palavra queria dizer para mim e se fazia mesmo sentido.
Fazia.
Num pomar as árvores precisam umas das outras. Crescem juntas, partilham a mesma terra, e é em conjunto que florescem e dão fruto. Gosto dessa ideia de fruto, de uma ideia que ganha corpo e depois alimenta a alma de alguém.
A minha família nunca teve um pomar.
Tinha terrenos, numa aldeia do norte, e viveu deles. Dos dois lados, o do meu pai e o da minha mãe, o ano inteiro era organizado à volta do que se plantava e dos animais que se criavam. Os meus avós ainda viveram assim, os meus pais já vieram para Lisboa. Talvez por isso a palavra me tenha soado tão bem. Não pela fruta, mas pelo gesto que cresci a ver: plantar, cuidar, esperar, e aceitar o que a terra decide dar nesse ano. Era a isto que eu queria regressar.
No fundo é o que faço com o barro. Dou a uma peça tudo o que sei e depois entrego-a ao fogo, que ma devolve como quer.
O nome foi crescendo na minha cabeça, no meio de muitas ideias e de muito entusiasmo. Chamei-lhe pomar durante algum tempo antes de reparar numa coisa.
Em português, pomar é masculino e pede um o. O pomar. Mas sempre que falava do projeto às pessoas de quem gosto, dizia a pomar. Saía-me assim, sem pensar. Quando reparei, já estava decidido sem mim.
Gramaticalmente é um desvio, uma discordância de género que resolvi assumir. E pensando agora, faz sentido: quase tudo aquilo com que trabalho é feminino. A terra, a água, a argila, a matéria, a forma, a memória. O pomar era das poucas palavras masculinas no meio de todas estas, e aquele a trouxe-o para junto delas.
E assim ficou, a pomar, e nunca me pareceu tão certo.
Gosto de pensar que uma peça começa comigo e depois vai criar raízes noutro lugar, numa casa que nunca vou conhecer, e que o pomar se vai compondo assim, peça a peça.
Mas escrevendo isto percebo que não é bem verdade que comece comigo. Eu própria sou feita de outras pessoas.
Das mãos que vi trabalhar em criança, na terra dos meus avós, de quem veio antes deles, das conversas, das referências, de tudo o que me foi ficando sem eu escolher.
Já sou muita gente antes de tocar no barro.